REFLITA SOBRE A CONDIÇÃO DA MULHER NO AXÉ MUSIC E LEMBRE:
A COREOGRAFIA DE CARNAVAL PODE FAZER VOCÊ
“DANÇAR FEIO” NO OLHAR SOBRE SI E NO OLHAR SOCIAL
No dia 28 de junho de 2009, a professora de educação infantil foi demitida da escola em que lecionava, depois de dançar uma coreografia sensual em uma casa de show em Salvador e ter a gravação em vídeo divulgada na rede mundial de computadores (internet). Ao acessar o link: (Video acima) o internauta pode ver a cena que causou polêmica na imprensa e fez parte dos debates nas rodas de conversas no trabalho e nas ruas de diversos estados do país . As reações sobre o episódio são as mais variadas, basta darmos uma olhadinha em blogs que trataram do assunto para lermos manifestações de apoio, de escárnio público, de solidariedade, convites solicitando que ela seja professora particular enfim...tem de tudo. Porém de maneira geral, o debate estabelecido por intermédio da imprensa na cobertura jornalística esta relacionada as duas correntes: os solidários a decisão da instituição de ensino e a dos que se defendem a professora. Para ilustrar trouxemos quatro comentários postados em um blog com um perfil diferençado do jornalismo e mais voltado para o entretenimento pessoal para perceber como as pessoas expressam a respeito da delimitação entre dois campos:
A favor da atitude da escola e contra a atitude da professora:
“Joelmi disse...
Que exemplo essa professora vai dar para os alunos?Embora ache que cada um tem direito a conduzir sua vida particular como bem queira, tudo tem limites. E essa música? Se é que isso pode ser chamado de música.
Depois quando um gringo fala que o Brasil é um país sem cultura o povo se dói.
Isso é um reflexo da decadência da educação e dos bons costumes em que vivemos.”
“Detroid25 disse...
Eu a notícia em vários blogs de Salvador, vi o vídeo na internet. Realmente, como Professor, muito me entristeceu ver uma colega, mesmo em momento de lazer, demonstrando tão pouco compromisso com a educação. A atitude da escola não poderia ser outra. Como a profissional se comportaria perante seus alunos e responsáveis? Como poderia transmitir para a classe os preceitos de ética e valorização do ser humano como um todo?”
Contra a atitude da escola e a favor da atitude da professora:
“Bussard disse...
O as pessoas estão chamando de mau exemplo ?
Essas pessoas não fazem sexo não ?!?!?!
Será que foram concebidas por inseminação artificial ?
E se fosse um a professora dançando funk ? Será que seria demitida ? Ou se fosse uma professora indigena que fosse filmada dançando nua em sua tribo ?Roubo e furto e uso de entorpecentes é crime . SEXUALIDADE NÃO É CRIME. Deixem as pessoas gosarem em paz pô. Tenho uma filha e a professora dela, contanto que se porte adequadamente em sala de aula, pode dançar o que quiser. Tive muitos professores e professoras que eu encontrava em festas, as vezes embragados, e nem por isso os deixei de respeita-los. O que me influenciava era a educação que meus pais me davam.Gostaria de saber o que esta instituição que demitiu a professora está fazendo sobre o uso de drogas (inclusive o álcool) que realmente é preocupante nas escolas. Aos pais escandalizados tenho um recado, conversem com seus filhos que é mais importante do que ficar preocupado qual dança a professora faz nas horas de folga.
“patricia disse...
Nossa gente, quantas e quantas outras educadoras não devem fazer o msm ou pior ...
Acho que vc's estão sendo um pouco antiquadro ...
Ela tem q se dá o respeito dentro do ambiente de trabalho dela;o que ela faz fora não é da conta de ninguém(não vai ser por isso q ela vai deixar de ser uma boa educadora ... pelo amor de Deus ...”
Com estas ideias iniciais sobre o fato e suas repercussões queremos convidá-lo a fazer um exercício de reflexão sobre os valores e ideias vigentes em nossa sociedade brasileira. Para tanto, vamos ter a perspectiva antropológica como aliada. Desta forma, ao invés de nos imiscuirmos nos debates emitindo pareceres e juízos de valor vamos tentar nos afastar de nossos conceitos prévios sobre o assunto, de nossas crenças imediatas para analisar alguns dos aspectos culturais envolvidos na celeuma. Assim o desafio é buscar um olhar de distanciamento em relação às nossos próprias concepções de vida e ideias sócio-culturais aprendidas e introjetadas ao longo do tempo e através de hábitos e rotinas da sociedade em que vivemos e na qual este fato ocorreu.
Os elementos trazidos para o debate, muito presentes nos trechos dos comentários que escolhemos estão relacionados aos costumes e as práticas dentro e entre grupos sociais. Afinal, a dança, as expressões de sensualidade, o papel que deve ser desempenhado por cada profissão e a moral estão sujeitos a modificações ao longo do tempo e às transformações culturais. Para nos auxiliar a definir Cultura poderemos entende-la, tomando a definição de Malinowski que a percebe como o todo integral constituído por implementos de bem de consumo, por tratados de convivência que vão constituir-se diferentemente para os vários agrupamentos sociais, por ideias e ofícios humanos, por crenças e costumes. E ainda sobre ela La Plantine nos coloca:
“um dos aspectos cuja abrangência é considerável, já que diz respeito a tudo que constitui uma sociedade: seus modos de produção econômica, suas técnicas, sua organização política e jurídica, seus sistemas de parentesco, seus sistemas de conhecimento, suas crenças religiosas, sua língua, sua psicologia, suas criações artísticas...
...aquilo que tomávamos por natural em nós mesmos é, de fato, cultural; aquilo que era evidente é infinitamente problemático. Disso decorre a necessidade, na formação antropológica, daquilo que não hesitarei em chamar de 'estranhamento', a perplexidade provocada pelo encontro de culturas. ”
Nossa cultura ocidental, sobretudo após o período histórico chamado de Revolução Industrial ficou muito marcada pela ideia de produtividade em que o indivíduo é uma peça de um sistema e deve estar prioritariamente voltado para perceber-se nesta engrenagem social e dar o máximo de si a fim de encaixar-se como elemento produtivo e harmônico dentro desta totalidade. Desta forma se o indivíduo é professor ele passa a ser visto como só possuindo esta dimensão, ou seja, ele deverá submeter todos os crivos e as ações de sua vida a este papel social. Por esta ótica o indivíduo ao optar ser professor deverá em todas as ocasiões da vida se perguntar se suas ações estão condizentes com o seu papel social, não é possível que ele abra espaço para ser outra coisa e muito menos exercer outra função.
Ao mesmo tempo que o universo laboral ganha ênfase, em nossa sociedade ele não exclui totalmente o lúdico, a brincadeira e o descanso que devem estar submetidos portanto a lógica do trabalho. Assim, Da Matta em O que é o Brasil nos ajuda a entender a relação entre o labor e o lúdico quando nos coloca: “diversas sociedades alternam suas vidas entre rotinas e ritos, trabalho e festa, períodos ordinários – onde a vida transcorre sem problemas- e as festas, os rituais, as comemorações- essas ocasiões extraordinárias, mas paradoxalmente datadas!- onde tudo é visto por um novo ângulo e perspectiva.
No Brasil, como em muitas outras sociedades, o rotineiro é equacionado ao trabalho ou ao que remete a obrigações e castigos; ao passo que o extraordinário, como o próprio nome indica, evoca o que é fora do comum e deve ser produzido com cumplicidade coletiva. Cada um desses lados permite “esquecer” o outro, como as duas faces de uma mesma moeda. Pois tanto a festa quanto a rotina são modos que a sociedade tem de exprimir-se e renovar-se.”
Para o povo brasileiro a dança está relacionada a momentos de alegria, celebração e como expressão da sensualidade. O Brasil é conhecido mundialmente por ser capaz de envolver todas as faixas etárias, classes sociais, etnias e atrair a atenção de outros povos produzindo uma das maiores(se não a maior) festa popular do mundo exaltando nossos ritmos musicais e nossas danças através que é o carnaval. Esta festa também é marcada por diferentes formas de mostrar o corpo, expressar sensualidade e estimular o exercício da sexualidade. Durante mais de uma semana toda vida social está voltada para esta festa em que muitas coreografias podem até simular o ato sexual. Na Bahia, local onde a professora foi demitida e toda polêmica foi gerada, durante a folia de Momo são inúmeras danças que surdem com este propósito: “dança da galinha”, “dança do xibiu”, “trenzinho da sacanagem”, “dança da garrafa”, etc...Nesta época parece existir uma “licença” social para que todos independentemente de seus papéis possam extravasar e dar vazão a comportamentos com fortes componentes sexuais.
É interessante notar que de alguma forma o próprio contexto cultural influencia para que episódios como este ocorram e se repitam. Afinal, muitos são os professores, médicos, advogados e pessoas de outros perfis profissionais que devem ir em uma casa de shows na cidade de salvador misturar-se a turistas e conterrâneos com o propósito de experimentar “reviver” ou “prolongar” durante algumas noites do ano o que vai ocupar as ruas durante os dias carnavalescos. Tanto é que, na Bahia, este chamado é feito ao longo do ano. As bandas de Pagode e Axé Music lançam suas músicas e suas respectivas coreografias em festas chamadas de carnaval fora de época em áreas públicas e também utilizam espaços de casas de espetáculo e bares como “laboratório” para saber como o público reage (afinal para essas pessoas o momento de lúdico adquire uma conotação de trabalho) às novas composições e ter uma ideia de qual será a mais adequada e propensa a “estourar” no período da festa. Grosso modo, podemos fazer uma analogia com o que ocorre entre as escolas de Samba, no Rio de Janeiro, que promovem com muita antecedência os concurso para escolha da música que representará a agremiação e os ensaios para que todos fiquem “afiados” conhecendo o samba que será apresentado na avenida. o lançamento das danças que farão sucesso no próximo carnaval acontece antecipadamente.
Muitos brasileiros acabam vivendo ou criando grandes expectativas de vida relacionadas a este momento máximo de colocar o “bloco na rua”. Afinal, no carnaval tudo pode, tudo vale em matéria de corpo e dança, enquanto “no trabalho, estragamos e submetemos e gastamos o corpo. No carnaval, isso também ocorre, mas de modo inverso. Aqui o corpo é gasto pelo prazer e pela brincadeira. Daí por que falamos que nos 'esbaldamos' e nos 'liquidamos' no carnaval...É uma situação em que as regras do mundo diário estão temporariamente de cabeça para baixo, que posso ganhar e realmente sentir uma incrível sensação de liberdade. Liberdade fundamental numa sociedade cuja rotina é dominada pelas hierarquias que a todos sujeitam numa escala de direitos e deveres vindos de cima para baixo, dos superiores para os inferiores dos que entram na fila e das 'pessoas' que jamais são vistas em público como comuns.”
Ora, se o carnaval é parte da cultura brasileira e baiana, se nesta festa é permitida a nudez, coreografias mais sensuais, o corpo ser mostrado permitindo que elementos ligados a moral do cotidiano, aos papéis sociais, a esfera política que são mantidos como pré-requisitos em outras festas como formaturas, missas, bailes, aniversários sejam totalmente esquecidos e se a professora estava em um território em que o lazer alude este momento máximo de nossa cultura porque tanta polêmica? Que diferenças entre os próprios brasileiros ficam fortes e se evidenciam com este episódio e no carnaval se diluem? Porque lemos tantos comentários com agressões verbais e insinuações sobre a reputação da professora? Se existiu a polêmica e ela é capaz de arrancar declarações “apaixonadas” contra ou a favor da escola ou da professora é porque algumas tensões sociais no cotidiano podem estar sendo colocadas para debaixo do tapete. Que conflitos estão escondidos e que ao olharmos com um distanciamento e estranharmos toda esta repercussão o fato pode nos mostrar? Que outras lições podem ser extraídas que não se limitam a ser contra ou a favor de um dos personagens envolvidos?
Bem, muito mais que responder a estas perguntas que nos auxiliam a ter um estranhamento e um distanciamento do fato nos permitindo perceber as ideias e bases em que nossas relações e costumes estão sendo estabelecidos queremos lançar pistas na busca de respostas. Uma delas nós já deixamos o leitor atento perceber nas entrelinhas. Uma delas está quando falamos sobre como a lógica de entendimento da sociedade moderna marcada por ideias positivistas, deterministas que observam os comportamentos humanos condicionados a somente a ótica do mundo do trabalho percebe e cria, através de teorias e ideias os modos de agir delimitando e influenciando até os dias atuais a compreensão de que as pessoas possuem um papel nesta “engrenagem” e devem dedicar suas vidas a cumprirem este papel a fim de não comprometerem a harmonia da engrenagem coletiva que é a sociedade. Assim qualquer postura que não esteja adequada ao modelo que se aplica a função social de professor pode constituir uma disfunção perigosa por parte do indivíduo que passa a ser visto como ameaça (encarado como doente ou criminoso). Outra possibilidade para percebermos a situação está relacionada ao fato de que a dança não foi realizada no espaço social reservado para o extraordinário, a comemoração o ritual de alegria. Ou seja, a professora se expôs e se permitiu sentir-se como se estivesse em pleno carnaval “onde o corpo e a alma devem estar juntos e existe punição para o bom comportamento”. Daí ser motivo de ser o centro das atenções afinal ela dançou o Todo Enfiado expondo o corpo fora do período carnavalesco. Será que a notícia teria o mesmo impacto se fosse dada no contexto de um baile carnavalesco realizado na mesma casa de show no mês de fevereiro durante os dias de folia?
Por fim gostaríamos de estimular a reflexão sobre as tensões sociais presentes em nosso cotidiano e que são potencializadas neste episódios. Nas falas dos internautas, que escolhemos, são reveladas diferenças, tensões disputas de espaço e poder pelas ideologias de diferentes classes e agrupamentos que compõem o que chamamos de povo brasileiro. Assim, nossas provocações detiveram-se falando muito sobre o carnaval por entendermos que este é um ponto importante pelo qual o episódio pode ser observado pode ser usado para corroborar a afirmação de DaMatta quando nos coloca que o carnaval é
“movimento numa sociedade que tem horror a mobilidade, sobretudo à mobilidade que conduz à troca de posição social. É exibição numa ordem social marcada pelo falso recado de quem 'conhece o seu lugar' – algo sempre usado para o mais forte controlar o mais fraco em todas as situações. É feminino num universo social marcado pelos homens, que controlam tudo o que é externo e jurídico, como os negócios, a religião oficial e a política...
o carnaval é a possibilidade utópica de mudar de lugar, de trocar de posição na estrutura social. De realmente inverter o mundo em direção à alegria, à abundância, à liberdade e, sobretudo, à igualdade de todos perante a sociedade. Pena que tudo isso só sirva para revelar o seu justo oposto...”
A COREOGRAFIA DE CARNAVAL PODE FAZER VOCÊ
“DANÇAR FEIO” NO OLHAR SOBRE SI E NO OLHAR SOCIAL
No dia 28 de junho de 2009, a professora de educação infantil foi demitida da escola em que lecionava, depois de dançar uma coreografia sensual em uma casa de show em Salvador e ter a gravação em vídeo divulgada na rede mundial de computadores (internet). Ao acessar o link: (Video acima) o internauta pode ver a cena que causou polêmica na imprensa e fez parte dos debates nas rodas de conversas no trabalho e nas ruas de diversos estados do país . As reações sobre o episódio são as mais variadas, basta darmos uma olhadinha em blogs que trataram do assunto para lermos manifestações de apoio, de escárnio público, de solidariedade, convites solicitando que ela seja professora particular enfim...tem de tudo. Porém de maneira geral, o debate estabelecido por intermédio da imprensa na cobertura jornalística esta relacionada as duas correntes: os solidários a decisão da instituição de ensino e a dos que se defendem a professora. Para ilustrar trouxemos quatro comentários postados em um blog com um perfil diferençado do jornalismo e mais voltado para o entretenimento pessoal para perceber como as pessoas expressam a respeito da delimitação entre dois campos:
A favor da atitude da escola e contra a atitude da professora:
“Joelmi disse...
Que exemplo essa professora vai dar para os alunos?Embora ache que cada um tem direito a conduzir sua vida particular como bem queira, tudo tem limites. E essa música? Se é que isso pode ser chamado de música.
Depois quando um gringo fala que o Brasil é um país sem cultura o povo se dói.
Isso é um reflexo da decadência da educação e dos bons costumes em que vivemos.”
“Detroid25 disse...
Eu a notícia em vários blogs de Salvador, vi o vídeo na internet. Realmente, como Professor, muito me entristeceu ver uma colega, mesmo em momento de lazer, demonstrando tão pouco compromisso com a educação. A atitude da escola não poderia ser outra. Como a profissional se comportaria perante seus alunos e responsáveis? Como poderia transmitir para a classe os preceitos de ética e valorização do ser humano como um todo?”
Contra a atitude da escola e a favor da atitude da professora:
“Bussard disse...
O as pessoas estão chamando de mau exemplo ?
Essas pessoas não fazem sexo não ?!?!?!
Será que foram concebidas por inseminação artificial ?
E se fosse um a professora dançando funk ? Será que seria demitida ? Ou se fosse uma professora indigena que fosse filmada dançando nua em sua tribo ?Roubo e furto e uso de entorpecentes é crime . SEXUALIDADE NÃO É CRIME. Deixem as pessoas gosarem em paz pô. Tenho uma filha e a professora dela, contanto que se porte adequadamente em sala de aula, pode dançar o que quiser. Tive muitos professores e professoras que eu encontrava em festas, as vezes embragados, e nem por isso os deixei de respeita-los. O que me influenciava era a educação que meus pais me davam.Gostaria de saber o que esta instituição que demitiu a professora está fazendo sobre o uso de drogas (inclusive o álcool) que realmente é preocupante nas escolas. Aos pais escandalizados tenho um recado, conversem com seus filhos que é mais importante do que ficar preocupado qual dança a professora faz nas horas de folga.
“patricia disse...
Nossa gente, quantas e quantas outras educadoras não devem fazer o msm ou pior ...
Acho que vc's estão sendo um pouco antiquadro ...
Ela tem q se dá o respeito dentro do ambiente de trabalho dela;o que ela faz fora não é da conta de ninguém(não vai ser por isso q ela vai deixar de ser uma boa educadora ... pelo amor de Deus ...”
Com estas ideias iniciais sobre o fato e suas repercussões queremos convidá-lo a fazer um exercício de reflexão sobre os valores e ideias vigentes em nossa sociedade brasileira. Para tanto, vamos ter a perspectiva antropológica como aliada. Desta forma, ao invés de nos imiscuirmos nos debates emitindo pareceres e juízos de valor vamos tentar nos afastar de nossos conceitos prévios sobre o assunto, de nossas crenças imediatas para analisar alguns dos aspectos culturais envolvidos na celeuma. Assim o desafio é buscar um olhar de distanciamento em relação às nossos próprias concepções de vida e ideias sócio-culturais aprendidas e introjetadas ao longo do tempo e através de hábitos e rotinas da sociedade em que vivemos e na qual este fato ocorreu.
Os elementos trazidos para o debate, muito presentes nos trechos dos comentários que escolhemos estão relacionados aos costumes e as práticas dentro e entre grupos sociais. Afinal, a dança, as expressões de sensualidade, o papel que deve ser desempenhado por cada profissão e a moral estão sujeitos a modificações ao longo do tempo e às transformações culturais. Para nos auxiliar a definir Cultura poderemos entende-la, tomando a definição de Malinowski que a percebe como o todo integral constituído por implementos de bem de consumo, por tratados de convivência que vão constituir-se diferentemente para os vários agrupamentos sociais, por ideias e ofícios humanos, por crenças e costumes. E ainda sobre ela La Plantine nos coloca:
“um dos aspectos cuja abrangência é considerável, já que diz respeito a tudo que constitui uma sociedade: seus modos de produção econômica, suas técnicas, sua organização política e jurídica, seus sistemas de parentesco, seus sistemas de conhecimento, suas crenças religiosas, sua língua, sua psicologia, suas criações artísticas...
...aquilo que tomávamos por natural em nós mesmos é, de fato, cultural; aquilo que era evidente é infinitamente problemático. Disso decorre a necessidade, na formação antropológica, daquilo que não hesitarei em chamar de 'estranhamento', a perplexidade provocada pelo encontro de culturas. ”
Nossa cultura ocidental, sobretudo após o período histórico chamado de Revolução Industrial ficou muito marcada pela ideia de produtividade em que o indivíduo é uma peça de um sistema e deve estar prioritariamente voltado para perceber-se nesta engrenagem social e dar o máximo de si a fim de encaixar-se como elemento produtivo e harmônico dentro desta totalidade. Desta forma se o indivíduo é professor ele passa a ser visto como só possuindo esta dimensão, ou seja, ele deverá submeter todos os crivos e as ações de sua vida a este papel social. Por esta ótica o indivíduo ao optar ser professor deverá em todas as ocasiões da vida se perguntar se suas ações estão condizentes com o seu papel social, não é possível que ele abra espaço para ser outra coisa e muito menos exercer outra função.
Ao mesmo tempo que o universo laboral ganha ênfase, em nossa sociedade ele não exclui totalmente o lúdico, a brincadeira e o descanso que devem estar submetidos portanto a lógica do trabalho. Assim, Da Matta em O que é o Brasil nos ajuda a entender a relação entre o labor e o lúdico quando nos coloca: “diversas sociedades alternam suas vidas entre rotinas e ritos, trabalho e festa, períodos ordinários – onde a vida transcorre sem problemas- e as festas, os rituais, as comemorações- essas ocasiões extraordinárias, mas paradoxalmente datadas!- onde tudo é visto por um novo ângulo e perspectiva.
No Brasil, como em muitas outras sociedades, o rotineiro é equacionado ao trabalho ou ao que remete a obrigações e castigos; ao passo que o extraordinário, como o próprio nome indica, evoca o que é fora do comum e deve ser produzido com cumplicidade coletiva. Cada um desses lados permite “esquecer” o outro, como as duas faces de uma mesma moeda. Pois tanto a festa quanto a rotina são modos que a sociedade tem de exprimir-se e renovar-se.”
Para o povo brasileiro a dança está relacionada a momentos de alegria, celebração e como expressão da sensualidade. O Brasil é conhecido mundialmente por ser capaz de envolver todas as faixas etárias, classes sociais, etnias e atrair a atenção de outros povos produzindo uma das maiores(se não a maior) festa popular do mundo exaltando nossos ritmos musicais e nossas danças através que é o carnaval. Esta festa também é marcada por diferentes formas de mostrar o corpo, expressar sensualidade e estimular o exercício da sexualidade. Durante mais de uma semana toda vida social está voltada para esta festa em que muitas coreografias podem até simular o ato sexual. Na Bahia, local onde a professora foi demitida e toda polêmica foi gerada, durante a folia de Momo são inúmeras danças que surdem com este propósito: “dança da galinha”, “dança do xibiu”, “trenzinho da sacanagem”, “dança da garrafa”, etc...Nesta época parece existir uma “licença” social para que todos independentemente de seus papéis possam extravasar e dar vazão a comportamentos com fortes componentes sexuais.
É interessante notar que de alguma forma o próprio contexto cultural influencia para que episódios como este ocorram e se repitam. Afinal, muitos são os professores, médicos, advogados e pessoas de outros perfis profissionais que devem ir em uma casa de shows na cidade de salvador misturar-se a turistas e conterrâneos com o propósito de experimentar “reviver” ou “prolongar” durante algumas noites do ano o que vai ocupar as ruas durante os dias carnavalescos. Tanto é que, na Bahia, este chamado é feito ao longo do ano. As bandas de Pagode e Axé Music lançam suas músicas e suas respectivas coreografias em festas chamadas de carnaval fora de época em áreas públicas e também utilizam espaços de casas de espetáculo e bares como “laboratório” para saber como o público reage (afinal para essas pessoas o momento de lúdico adquire uma conotação de trabalho) às novas composições e ter uma ideia de qual será a mais adequada e propensa a “estourar” no período da festa. Grosso modo, podemos fazer uma analogia com o que ocorre entre as escolas de Samba, no Rio de Janeiro, que promovem com muita antecedência os concurso para escolha da música que representará a agremiação e os ensaios para que todos fiquem “afiados” conhecendo o samba que será apresentado na avenida. o lançamento das danças que farão sucesso no próximo carnaval acontece antecipadamente.
Muitos brasileiros acabam vivendo ou criando grandes expectativas de vida relacionadas a este momento máximo de colocar o “bloco na rua”. Afinal, no carnaval tudo pode, tudo vale em matéria de corpo e dança, enquanto “no trabalho, estragamos e submetemos e gastamos o corpo. No carnaval, isso também ocorre, mas de modo inverso. Aqui o corpo é gasto pelo prazer e pela brincadeira. Daí por que falamos que nos 'esbaldamos' e nos 'liquidamos' no carnaval...É uma situação em que as regras do mundo diário estão temporariamente de cabeça para baixo, que posso ganhar e realmente sentir uma incrível sensação de liberdade. Liberdade fundamental numa sociedade cuja rotina é dominada pelas hierarquias que a todos sujeitam numa escala de direitos e deveres vindos de cima para baixo, dos superiores para os inferiores dos que entram na fila e das 'pessoas' que jamais são vistas em público como comuns.”
Ora, se o carnaval é parte da cultura brasileira e baiana, se nesta festa é permitida a nudez, coreografias mais sensuais, o corpo ser mostrado permitindo que elementos ligados a moral do cotidiano, aos papéis sociais, a esfera política que são mantidos como pré-requisitos em outras festas como formaturas, missas, bailes, aniversários sejam totalmente esquecidos e se a professora estava em um território em que o lazer alude este momento máximo de nossa cultura porque tanta polêmica? Que diferenças entre os próprios brasileiros ficam fortes e se evidenciam com este episódio e no carnaval se diluem? Porque lemos tantos comentários com agressões verbais e insinuações sobre a reputação da professora? Se existiu a polêmica e ela é capaz de arrancar declarações “apaixonadas” contra ou a favor da escola ou da professora é porque algumas tensões sociais no cotidiano podem estar sendo colocadas para debaixo do tapete. Que conflitos estão escondidos e que ao olharmos com um distanciamento e estranharmos toda esta repercussão o fato pode nos mostrar? Que outras lições podem ser extraídas que não se limitam a ser contra ou a favor de um dos personagens envolvidos?
Bem, muito mais que responder a estas perguntas que nos auxiliam a ter um estranhamento e um distanciamento do fato nos permitindo perceber as ideias e bases em que nossas relações e costumes estão sendo estabelecidos queremos lançar pistas na busca de respostas. Uma delas nós já deixamos o leitor atento perceber nas entrelinhas. Uma delas está quando falamos sobre como a lógica de entendimento da sociedade moderna marcada por ideias positivistas, deterministas que observam os comportamentos humanos condicionados a somente a ótica do mundo do trabalho percebe e cria, através de teorias e ideias os modos de agir delimitando e influenciando até os dias atuais a compreensão de que as pessoas possuem um papel nesta “engrenagem” e devem dedicar suas vidas a cumprirem este papel a fim de não comprometerem a harmonia da engrenagem coletiva que é a sociedade. Assim qualquer postura que não esteja adequada ao modelo que se aplica a função social de professor pode constituir uma disfunção perigosa por parte do indivíduo que passa a ser visto como ameaça (encarado como doente ou criminoso). Outra possibilidade para percebermos a situação está relacionada ao fato de que a dança não foi realizada no espaço social reservado para o extraordinário, a comemoração o ritual de alegria. Ou seja, a professora se expôs e se permitiu sentir-se como se estivesse em pleno carnaval “onde o corpo e a alma devem estar juntos e existe punição para o bom comportamento”. Daí ser motivo de ser o centro das atenções afinal ela dançou o Todo Enfiado expondo o corpo fora do período carnavalesco. Será que a notícia teria o mesmo impacto se fosse dada no contexto de um baile carnavalesco realizado na mesma casa de show no mês de fevereiro durante os dias de folia?
Por fim gostaríamos de estimular a reflexão sobre as tensões sociais presentes em nosso cotidiano e que são potencializadas neste episódios. Nas falas dos internautas, que escolhemos, são reveladas diferenças, tensões disputas de espaço e poder pelas ideologias de diferentes classes e agrupamentos que compõem o que chamamos de povo brasileiro. Assim, nossas provocações detiveram-se falando muito sobre o carnaval por entendermos que este é um ponto importante pelo qual o episódio pode ser observado pode ser usado para corroborar a afirmação de DaMatta quando nos coloca que o carnaval é
“movimento numa sociedade que tem horror a mobilidade, sobretudo à mobilidade que conduz à troca de posição social. É exibição numa ordem social marcada pelo falso recado de quem 'conhece o seu lugar' – algo sempre usado para o mais forte controlar o mais fraco em todas as situações. É feminino num universo social marcado pelos homens, que controlam tudo o que é externo e jurídico, como os negócios, a religião oficial e a política...
o carnaval é a possibilidade utópica de mudar de lugar, de trocar de posição na estrutura social. De realmente inverter o mundo em direção à alegria, à abundância, à liberdade e, sobretudo, à igualdade de todos perante a sociedade. Pena que tudo isso só sirva para revelar o seu justo oposto...”
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